Série Exposição
Mais uma Exposição no CCBB. Imperdível!!!!!
Corpos Presentes/Still Being , do escultor inglês Antony Gormley.
“Antony Gormley construiu uma das mais coerentes pesquisas estéticas
das últimas décadas da arte contemporânea. Baseando-se na tensão entre o
corpo e o espaço, ele criou espaços, redefiniu o vazio e o pleno,
endereçou a observação sobre o corpo como um procedimento participativo.
Para entender Gormley, é preciso ver com a pele, mensurar com os olhos e
se deixar ocupar pelo essencial sentido de presença, ferramenta
fundamental para vivenciar sua obra.
De longe, a obra dele pode
parecer obsessiva, estática e repetitiva. Ao se aproximar de suas
instalações, esculturas e obras em espaço público, muito mais se revela.
Sua capacidade de articular a percepção do espaço faz com que apareçam
as muitas camadas de como o corpo é o definidor do espaço. A casa que o
abriga. Se a pele é o contenedor da substância do corpo, a arquitetura é
o contenedor dos corpos que habitamos.
Moldando suas figuras
sempre a partir do seu próprio corpo, Gormley coloca-se na realidade
urbana como um ato de performance ocupa um espaço. Certa imposição dada
pelo estático, pela escala, pelo peso e pelo volume leva sua obra à
condição de interventor da consciência sobre a própria condição
humana. O ser estático.
Tentar colocar uma legenda em sua obra é
fazer o que ele faz perder o sentido. Gormley é um artista criador de
situações. Quando cria uma instalação em que ocupa os halls do Museu
Hermitage com todas as suas pinturas e esculturas, o contexto onde estão
inseridas passa a ser parte fundamental da obra. Assim como quando fez
Blind Light, em que uma caixa de fumaça engolfa o visitante, que em si
passa a ser a imagem da obra. Ou em Echigo Tsumari, em que a tensão de
cabos em uma casinha de agricultor japonesa é feita ao extremo, como que
a transformando em uma entidade. Diga-me onde estou que te direi quem
sou. Ele cria a situação, assim como um artista performático quando
insere o seu corpo em algum contexto. A equação transforma-se no
resultado. No processo de um ano e meio desenvolvendo este projeto,
pude acompanhar de perto a mente e a energia desse grande criador.
Obcecado por tudo, com uma capacidade de trabalho ímpar e o entusiasmo
de um jovem artista, ele nunca desiste. Atento aos detalhes, criador de
amigos e viajante irrequieto, o seu estúdio em Londres possui uma equipe
alinhada, com uma organização rara no mundo das artes. Processos
industriais aliados a processos superartesanais. Um excelente domínio da
ciência por trás da arte. Essa relação entre geometria, gravidade,
modelos tridimensionais, desenvolvimento e estudo de materiais leva a
sua obra a desafios de engenharia que redefinem espaços. Gormley gosta
do impossível e confia nos obsessivos.
O desafio nesta exposição
que reconstrói uma boa parte da trajetória do artista é encontrar o
corpo nas múltiplas facetas e linguagens que Antony Gormley explorou. Em
toda a sua obra, pode-se encontrar essa manifestação do corpo, às vezes
explícito, outras implícito, revelado em sua ausência. Mas é a
abstração do espaço negativo do corpo que revela o território poético
dele. Encontrar o que existe no vazio de cada corpo, ou o ar que ocupa o
espaço não corpo, é a forma de encontrar essa ideia de molde do que
somos. Os corpos de Gormley estão por toda parte, materializando-se e
desmaterializando-se nos espaços expositivos. Aprender a revelar
os corpos presentes é a essência desta exposição.
Uma das coisas
mais intrigantes na obra de Gormley é a busca pelo equilíbrio, pela
forte relação que suas obras possuem com a gravidade e seu centro de
balanço. Seu processo construtivo desafia as características dos
materiais e sua tensão em relação ao chão. Um corpo difere-se de um
monte de carne pela dignidade associada ao fato de esse corpo conseguir
se manter de pé. Esse aspecto cria um eixo vertical que se alia à
percepção dos campos horizontais produzidos pela inserção de suas obras
no espaço. O cruzamento desses dois eixos estabelece uma forma mítica,
que surge silenciosamente ao se observar sua obra. Uma relação entre
homens criando o espaço e as dimensões do lugar e do não lugar se
tensionando. O aqui e o além.
Corpos Presentes / Still Being abre
uma porta ao público brasileiro para o universo criativo e processual de
Antony Gormley, explorando uma ampla gama de formas de articular a
presença sensorial no espaço, como em obras como Breathing Room, até a
inter-relação entre o corpo e o espaço público, como na intervenção
Event Horizon. Passa pela riqueza de sua vivência em Porto Velho,
Rondônia, onde realizou o Amazonian Field, com seus milhares
de corpos buscando sentido, há vinte anos atrás, durante a Eco-92. Ainda
para esta exposição, Antony decidiu recriar uma de suas mais antigas
obras, Mother’s Pride, em que come o seu espaço dentro do pão de que é
feito. Um novo significado para a palavra pão de forma. A peça de maior
escala da exposição é a obra Critical Mass, em que maciças figuras de
630 kg cada estão suspensas e aglomeradas na rotunda, como uma chuva de
intenções diversas procurando uma posição improvável. Drift, Ferment e
Loss apresentam a dimensão de certa abstração na sua representação da
forma humana. Mas é Flesh que leva ao ponto mais radical do que ele faz:
nesse bloco de concreto, na forma mítica de uma cruz, está o molde
negativo de seu corpo, invisível, mas físico, absoluto e real. A matéria
carrega algo que não vemos, apenas intuímos. Essa tensão é estruturante
em sua obra, a presença física dissonante da percepção. Aquilo que não
sabemos o que é, mas sentimos que está. Ainda que sendo um Corpo
Presente.
‘Agora entre o meu ser e o ser alheio a linha de fronteira se rompeu.’ Waly Salomão
Para
se entregar à obra de Antony Gormley, não se deve se ater ao que está
visível aos olhos, mas sim a algo muito mais sublime e ao mesmo tempo
intenso, o sentimento de presença – algo que não é do léxico comum das
artes visuais, mas que quando ocorre desnuda o verdadeiro acontecimento
da arte. A consciência do espaço e a evidência de que temos antenas
psicofisiológicas, instrumentos ancestrais de percepção desenvolvidos no
berço mais profundo da história humana, são elementos de linguagem que o
artista usa para revelar o invisível em sua obra. Sua arte é mostrar o
que não pode ser visto.”
Marcello Dantas( Curador da Mostra)